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<channel><title><![CDATA[Rel&oacute;gio D'&Aacute;gua Editores - Do Editor]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/do-editor.html]]></link><description><![CDATA[Do Editor]]></description><pubDate>Mon, 14 May 2012 02:50:00 -0800</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[Masoquismo na APEL]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/04/masoquismo-na-apel.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/04/masoquismo-na-apel.html#comments]]></comments><pubDate>Mon, 30 Apr 2012 07:44:10 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/04/masoquismo-na-apel.html</guid><description><![CDATA[       N&atilde;o, n&atilde;o estou a sugerir que no 6.&ordm; andar do n.&ordm; 27 da Av. dos Estados Unidos da Am&eacute;rica os dir [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-thin " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://www.relogiodagua.pt/uploads/9/8/1/6/9816481/5718427_orig.jpg" alt=" Imagem " style="width:100%;max-width:1066px" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph" style='text-align:left;'>N&atilde;o, n&atilde;o estou a sugerir que no 6.&ordm; andar do n.&ordm; 27 da Av. dos Estados Unidos da Am&eacute;rica os directores da APEL se dedicam a pr&aacute;ticas de autoflagela&ccedil;&atilde;o em meio da habitual parafern&aacute;lia de blus&otilde;es negros, chicotes e algemas.<br />A autoflagela&ccedil;&atilde;o a que me refiro n&atilde;o vem de profundezas do inconsciente, mas do c&eacute;u, ou mais exactamente das nuvens.<br />Tal como sucedeu o ano passado, a Feira&nbsp;do Livro de Lisboa abre sob a chuva, a humidade e o frio que afasta visitantes e amea&ccedil;a livros e sess&otilde;es de aut&oacute;grafos. Entretanto, o efeito da promo&ccedil;&atilde;o dissipa-se.<br />Muitos de n&oacute;s t&ecirc;m j&aacute; nostalgia da Feira de Lisboa percorrida em tardes de sol, onde &agrave; sombra de um castanheiro-da-&iacute;ndia pod&iacute;amos ler algum desses cl&aacute;ssicos russos que ajudaram a formar o nosso itiner&aacute;rio sentimental.<br />Deixou de ser assim porque a APEL insiste em realizar a Feira entre a &uacute;ltima semana de Abril e meados de Maio. Ora &eacute; estatisticamente mais prov&aacute;vel ocorrer chuva nesse per&iacute;odo do que, por exemplo, entre 3 e 20 de Maio, que tem ainda a vantagem dos jacarand&aacute;s floridos no Parque Eduardo VII. N&atilde;o &eacute; s&oacute; a meteorologia a diz&ecirc;-lo. A sabedoria popular fala de &laquo;Abril, &aacute;guas mil&raquo; e a po&eacute;tica, atrav&eacute;s T. S. Eliot, refere que &laquo;Abril &eacute; o m&ecirc;s mais cruel&raquo; (&hellip;), &laquo;agita ra&iacute;zes dormentes com chuva da Primavera&raquo;.<br />Que explica ent&atilde;o este reiterado masoquismo anual? A APEL certamente dir&aacute; que, sendo os pavilh&otilde;es da Feira do Livro do Porto os mesmos de Lisboa, n&atilde;o se pode empurrar aquela feira para o Ver&atilde;o e a dispers&atilde;o das f&eacute;rias. Mas que mal haveria em realiz&aacute;-la entre, digamos, 8 e 24 de Junho?<br />De resto, n&atilde;o se entende porque n&atilde;o se alterna entre as duas cidades o in&iacute;cio das Feiras. Como h&aacute; muito menos pavilh&otilde;es no Porto, no ano em que a Feira come&ccedil;asse a norte, poder-se-ia mesmo avan&ccedil;ar a sua montagem em Lisboa, estreitando o prazo entre as feiras, e permitindo assim que acabassem mais cedo.<br />E j&aacute; agora, sendo cada vez menos as inscri&ccedil;&otilde;es para a Feira do Porto, porque n&atilde;o adi&aacute;-las de modo a poderem ser feitas j&aacute; com as receitas recolhidas na de Lisboa? &Eacute; que o aluguer dos pavilh&otilde;es &eacute; bem mais caro que o de uma su&iacute;te num bem situado hotel de Manhattan ou mesmo de Luanda.<br /><br />Francisco Vale<br /></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[2011, balanço de um ano indeciso]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/2011-balano-de-um-ano-indeciso.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/2011-balano-de-um-ano-indeciso.html#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Jan 2012 08:13:52 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/2011-balano-de-um-ano-indeciso.html</guid><description><![CDATA[       Em 2011, editores, cr&iacute;ticos e at&eacute; autores insistiram nos gestos habituais como se nada &agrave; s [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div ><div class="wsite-image wsite-image-border-thin " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://www.relogiodagua.pt/uploads/9/8/1/6/9816481/7708941.jpg?289" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div  class="paragraph editable-text" style=" text-align: left; ">Em 2011, editores, cr&iacute;ticos e at&eacute; autores insistiram nos gestos habituais como se nada &agrave; sua volta se houvesse alterado.<br>O novo Acordo Ortogr&aacute;fico foi recebido com a mesma resignada acrim&oacute;nia com que o campon&ecirc;s acolhe o mau tempo. E o lan&ccedil;amento de plataformas para distribui&ccedil;&atilde;o de e-books quase n&atilde;o evoluiu, deixando-se a iniciativa da reestrutura&ccedil;&atilde;o do sector a empresas que lhe s&atilde;o alheias, como a Google.<br>   <br><strong>Editores</strong><br>Na edi&ccedil;&atilde;o h&aacute; a destacar a feliz entrada na fic&ccedil;&atilde;o portuguesa da Tinta-da-China, com obras de Maria Dulce Cardoso e M&aacute;rio de Carvalho, e as publica&ccedil;&otilde;es da Ahab, que prolonga nas suas escolhas a lac&oacute;nica exactid&atilde;o do seu nome.<br>Algumas editoras de poesia, da Averno &agrave; Alma Azul, lan&ccedil;aram novos autores, interessantes mas a necessitarem de confirma&ccedil;&atilde;o.<br>As ex-editoras independentes, integradas naLeya ou na Porto Editora, usaram os meios financeiros acrescidos de que agora disp&otilde;em para disputarem autores &agrave;s editoras que se mantiveram &agrave; margem do processo de concentra&ccedil;&atilde;o. O resultado foi o agravamento da crise de algumas destas e que o ensaio, sobretudo o relacionado com o actual estado de coisas, fosse ignorado num autismo editorial sem paralelo europeu.<br>Dois acontecimentos singulares abalaram a vida editorial.<br>O primeiro foi o desmoronamento da Babel &mdash; quem n&atilde;o se lembra do seu conselho editorial integrado por dezenas de intelectuais e da mete&oacute;rica ascens&atilde;o do seu director a presidente da APEL?<br>O epis&oacute;dio parece nada ter a ver com uma qualquer maldi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica, mas com a tentativa de aplicar m&eacute;todos de gest&atilde;o financeira a um sector com regras pr&oacute;prias. Nem Pessoa, nem Heinrich B&ouml;ll ou os seus leitores parecem dar-se bem com t&uacute;neis megal&oacute;manos como o que a Babellevou &agrave; feira do livro de Lisboa.<br>Outro acontecimento significativo ocorreu com a Difel. O seu fim e r&aacute;pida dispers&atilde;o dos despojos, de Umberto Eco a Isabel Allende, revela a vulnerabilidade de cat&aacute;logos baseados na fic&ccedil;&atilde;o traduzida, num per&iacute;odo em que as ag&ecirc;ncias internacionais imp&otilde;em contratos com prazos de vig&ecirc;ncia cada vez menores.<br>   <br><strong>Cr&iacute;ticos</strong><br>Os cr&iacute;ticos continuaram a privilegiar no seu balan&ccedil;o anual a fic&ccedil;&atilde;o, poucos deles se mostrando dispon&iacute;veis para lidar com o ensaio e a ci&ecirc;ncia.&nbsp;<br>Nesta paisagem pouco diversa, n&atilde;o &eacute; de estranhar que se tenha confirmado a import&acirc;ncia de um cr&iacute;tico e um escritor que n&atilde;o concebem fic&ccedil;&atilde;o sem ideias.<br>&Eacute; o caso de Rog&eacute;rio Casanova, sempre brilhante quando n&atilde;o troca o seu papel de cr&iacute;tico com sentido de humor pelo humor sem sentido. Um exemplo &eacute; dado pelos textos que publicou na <em style="">Ler</em> de Dezembro. Al&eacute;m da an&aacute;lise que faz sobre <em style="">Vida e Destino</em>, de Vassili Grossman, escreveu o artigo mais consistente que sobre o rec&eacute;m-falecido Christopher Hitchens saiu na imprensa portuguesa. Ao contr&aacute;rio de textos acr&iacute;ticos e at&eacute; de algumas colagens, Rog&eacute;rio Casanova fala da banalidade de um trajecto pol&iacute;tico feito entre o estr&eacute;pito das pol&eacute;micas e de erros de an&aacute;lise que n&atilde;o diminuem o interesse pelas reflex&otilde;es que os acompanharam.<br>Na literatura a confirma&ccedil;&atilde;o &eacute; Gon&ccedil;alo M. Tavares, em deliberada ruptura com as tradi&ccedil;&otilde;es sentimentais da literatura portuguesa, uma linguagem despojada que soube integrar no seu universo pessoal as tradi&ccedil;&otilde;es do romance centro-europeu de entre guerras, de Kafka a Robert Walser.<br><br>   <strong>E 2012?</strong><br>Nada, neste in&iacute;cio de ano, anuncia altera&ccedil;&otilde;es dr&aacute;sticas no sector editorial.<br>Apenas, como &eacute; usual em per&iacute;odos de crise, os editores reduzem os t&iacute;tulos e as tiragens e os livreiros alargam as promo&ccedil;&otilde;es. Alguns dos f&atilde;s de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos e de Margarida Rebelo Pinto parecem come&ccedil;ar a ter d&uacute;vidas se eles ser&atilde;o mesmo esses g&eacute;nios da literatura cujo &uacute;ltimo romance &eacute; preciso comprar a correr. Esta d&uacute;vida seria mesmo um dos poucos sinais de esperan&ccedil;a para a literatura  neste in&iacute;cio de 2012.<br><br>Francisco Vale<br>  <br><font size="1">(imagem de Max Ernst)</font><br> <br><br><br></div>  ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como Editar Um Primeiro Livro]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/como-editar-um-primeiro-livro.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/como-editar-um-primeiro-livro.html#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Jan 2012 08:10:16 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/como-editar-um-primeiro-livro.html</guid><description><![CDATA[Se deseja ser escritor tem de aceitar o risco de nunca viver do que escreve &ndash; em Portugal, s&oacute; meia d&uacute;zia de autores o conseguem.Para quem quiser enriquecer o caminho &eacute; outro. Caso n&atilde;o tenha idade para uma academia de futebol, nem &laquo;est&ocirc;mago&raquo; para fazer carreira nas juventudes partid&aacute;rias, pode sempre tentar descobrir um enredo esot&eacute;rico que envolva a Ordem dos  [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div  class="paragraph editable-text" style=" text-align: left; ">Se deseja ser escritor tem de aceitar o risco de nunca viver do que escreve &ndash; em Portugal, s&oacute; meia d&uacute;zia de autores o conseguem.<br />Para quem quiser enriquecer o caminho &eacute; outro. Caso n&atilde;o tenha idade para uma academia de futebol, nem &laquo;est&ocirc;mago&raquo; para fazer carreira nas juventudes partid&aacute;rias, pode sempre tentar descobrir um enredo esot&eacute;rico que envolva a Ordem dos Templ&aacute;rios ou uma rainha portuguesa infeliz e ardente. Neste caso, ningu&eacute;m se lembrar&aacute; de si dentro de dez anos, mas ser&aacute; considerado escritor por alguns amigos mais condescendentes e pelos habituais leitores do g&eacute;nero.<br /><br /><strong style="">A Forma&ccedil;&atilde;o</strong><br />Na avalia&ccedil;&atilde;o das suas possibilidades tem de ter em conta a forma&ccedil;&atilde;o. Mais de metade dos escritores que temos cursaram as diversas Filologias ou Direito.<br />Mas se for um auto-didacta, nem por isso deve desistir. Afinal Jos&eacute; Saramago, Agustina Bessa-Lu&iacute;s e Alexandre O&rsquo;Neill deram boa conta de si.<br />Outro aspecto a ter em conta &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o que se tem com o mundo editorial.<br />Se conhece um editor pode sempre convid&aacute;-lo para almo&ccedil;ar e, na altura do caf&eacute;, depois de terem lembrado epis&oacute;dios dos agitados anos setenta, dizer qualquer coisa como: &laquo;Lembras-te daquele conto que publiquei na revista da Faculdade? Sabes, tenho andado a escrever umas coisas...&raquo;<br />Se n&atilde;o conhece ningu&eacute;m, tente os pr&eacute;mios revela&ccedil;&atilde;o ou o envio do original pelo correio.<br /><br /><strong style="">Os Pr&eacute;mios Liter&aacute;rios&hellip;<br /></strong>H&aacute; v&aacute;rios modos de obter um pr&eacute;mio liter&aacute;rio.<br />O primeiro &eacute; tentar escrever um livro diferente ou melhor do que todos os que j&aacute; leu, avaliando cada palavra e sentindo o ritmo das frases, tacteando os limites da imagina&ccedil;&atilde;o. Alguns autores come&ccedil;aram com pr&eacute;mios revela&ccedil;&atilde;o. Foi o caso de Almeida Faria, com&nbsp;<em style="">Rumor Branco</em>. Tamb&eacute;m Agustina editou na Guimar&atilde;es&nbsp;<em style="">Mundo Fechado</em>depois de ter vencido um concurso liter&aacute;rio. O mesmo sucedeu com Ana Teresa Pereira e&nbsp;<em style="">Matar a Imagem</em>.<br />Mas esse &eacute; um caminho incerto e, para usar a express&atilde;o de Philip Roth, s&atilde;o poucos os jovens escritores para quem &laquo;as dificuldades s&atilde;o uma esp&eacute;cie de divindade&raquo;.<br />Aos impacientes sugerimos dois atalhos.<br />O primeiro &eacute; percorrer dia e noite a rua onde mora Gon&ccedil;alo M. Tavares, esperando encontrar uma mochila perdida com algum original &ndash; afinal &eacute; o autor que mais pr&eacute;mios tem recebido. O outro &eacute; enviar para concurso um romance que imite descaradamente o estilo de Vasco Gra&ccedil;a Moura, que est&aacute; em pelo menos metade dos j&uacute;ris liter&aacute;rios, esperando que ele conven&ccedil;a os seus pares de que est&atilde;o perante um enorme talento (neste caso, &eacute; inconveniente usar o novo Acordo Ortogr&aacute;fico).<br /><br /><strong style="">&hellip; E o Modo de os Receber</strong><br />No caso de o pr&eacute;mio lhe ser atribu&iacute;do, pode limitar-se a agradecer o &laquo;est&iacute;mulo&raquo; ou adoptar uma atitude &agrave; Thomas Bernhard, a do mendigo insolente, comprando um fato para a cerim&oacute;nia e insultando o j&uacute;ri, a literatura oficial e o pa&iacute;s.<br />H&aacute; ainda uma atitude interm&eacute;dia, a de pedir ao editor que o represente. Caso deseje fazer carreira no&nbsp;<em style="">Jornal de Letras</em>, pode justificar a sua aus&ecirc;ncia com uma viagem aos pal&aacute;cios do Grande Canal em Veneza ou ao&nbsp;<em style="">Campanile</em>&nbsp;de Giotto em Floren&ccedil;a. Se lhe interessa mais a&nbsp;<em style="">C&acirc;mara Clara</em>, justifique-se com uma ida a Nova Iorque para ver no MoMA uma retrospectiva de Rothko.<br /><br /><strong style="">O Envio do Manuscrito por Correio<br /></strong>Ao enviar o manuscrito para o editor, deve ter em conta que manuscrito &eacute; um modo de dizer.<br />Nos tempos que correm, nenhum editor lhe perdoar&aacute; &ndash; a n&atilde;o ser que o autor tenha mais de noventa anos &ndash; o envio de um texto manuscrito ou mesmo teclado &agrave; m&aacute;quina. Tudo &eacute; mais f&aacute;cil, sobretudo se o original vier a ser publicado, com um texto em suporte digital acompanhado pela respectiva impress&atilde;o (o original deve ser endere&ccedil;ado ao pr&oacute;prio editor).<br />Al&eacute;m disso, &eacute; preciso saber escolher a editora. Se &eacute; influenciado por Bukowski e Henry Miller n&atilde;o vale a pena pensar na Gaialivro, que publica hist&oacute;rias onde at&eacute; os vampiros s&atilde;o castos. Se colecciona aut&oacute;grafos de Margarida Rebelo Pinto, tente logo a Oficina do Livro.<br /><br /><strong style="">A Edi&ccedil;&atilde;o de Autor</strong><br />Tradicionalmente, o autor cujo original era v&aacute;rias vezes recusado imprimia a obra &agrave; sua custa (ou aceitava participar nas despesas da editora o que ocultava muitas vezes um neg&oacute;cio obsceno).<br />O caso mais famoso de autoedi&ccedil;&atilde;o &eacute; o de Miguel Torga.<br />Hoje, com o desenvolvimento conjunto da Internet e da impress&atilde;o digital, a edi&ccedil;&atilde;o de autor aproxima-se j&aacute;, em n&uacute;mero de t&iacute;tulos, da edi&ccedil;&atilde;o normal em pa&iacute;ses como os EUA.<br />Algumas companhias como a Creative Space da Amazon produzem obras cobrando os custos de impress&atilde;o e partilhando os lucros. Em 2008, a Author Solutions publicou 13 mil t&iacute;tulos, atingindo os 2,5 milh&otilde;es de exemplares, em parte distribu&iacute;dos atrav&eacute;s da Amazon ou acess&iacute;veis no site da maior cadeia de livrarias norte-americana, a Barnes &amp; Noble.<br />Na Europa, onde as tradi&ccedil;&otilde;es culturais s&atilde;o diferentes, o movimento &eacute; incipiente, no que se refere &agrave; fic&ccedil;&atilde;o narrativa e poesia. No entanto, algumas livrarias brit&acirc;nicas disp&otilde;em j&aacute; de servi&ccedil;os de impress&atilde;o a pedido, que podem servir a autoedi&ccedil;&atilde;o.<br />Dados os riscos financeiros e tempo que exige, a autoedi&ccedil;&atilde;o s&oacute; deve ser encarada pelos autores recusados pelas editoras &laquo;tradicionais&raquo; que tenham uma n&iacute;tida convic&ccedil;&atilde;o do seu talento.<br /><br /><strong style="">O T&iacute;tulo<br /></strong>O t&iacute;tulo deve merecer um cuidado particular.&nbsp;<em style="">Bruscamente no Ver&atilde;o Passado</em>,&nbsp;<em style="">O Jardim dos Caminhos Que Se Bifurcam</em>,&nbsp;<em style="">&Agrave; Sombra das Raparigas em Flor</em>&nbsp;ou&nbsp;<em style="">A Senhora Smilla e a Sua Especial Percep&ccedil;&atilde;o da Neve</em>&nbsp;s&atilde;o t&iacute;tulos que fizeram muito pelas respectivas obras.<br />O in&iacute;cio do livro pode ser decisivo. Nas editoras de menor dimens&atilde;o a leitura &eacute; feita pelos pr&oacute;prios directores que v&atilde;o decidir se continuam depois de ler dez p&aacute;ginas.<br />De qualquer modo, t&ecirc;m de ser originais, pelo que n&atilde;o &eacute; boa ideia come&ccedil;ar com: &laquo;Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me t&atilde;o depressa que n&atilde;o tinha tempo de pensar: &ldquo;Vou adormecer.&rdquo;&raquo;<br />Na poesia evite confundir versos com bons sentimentos e n&atilde;o acredite que somos um pa&iacute;s de poetas. E n&atilde;o lhe far&aacute; mal seguir o conselho de Virginia Woolf em&nbsp;<em style="">Carta a Um Jovem Poeta</em>: &laquo;Nunca publique nada antes dos 30 anos.&raquo;<br /><br /><strong style="">A Espera</strong><br />Enviado o original, tem de saber esperar. Mostrar impaci&ecirc;ncia passada uma semana &eacute; mau sinal. E esperar mais de seis meses revela falta de convic&ccedil;&atilde;o. O melhor &eacute; informar-se dos prazos junto do editor (s&atilde;o poucos os que em Portugal t&ecirc;m o apoio de Comiss&otilde;es de Leitura).<br />Mas o principal &eacute; saber que apenas um em mil originais ser&aacute; aceite. De qualquer modo, envie o seu para v&aacute;rios editores. As possibilidades aumentam e se um deles o aceitar poder&aacute; sempre ter o prazer de explicar aos outros que lamenta mas...<br />Em caso de recusa, pode pensar que o editor &eacute; um incompetente, o que pode muito bem ser o caso.&nbsp;<em style="">Em Busca do Tempo Perdido</em>,&nbsp;<em style="">Debaixo do Vulc&atilde;o</em>,&nbsp;<em style="">Uma Conspira&ccedil;&atilde;o de Est&uacute;pidos</em>&nbsp;e&nbsp;<em style="">Levantado do Ch&atilde;o</em>, integram a longa lista de originais recusados. At&eacute; os melhores se enganam. Basta lembrar que o&nbsp;<em style="">Ulisses</em>&nbsp;foi recusado pela Hogarth Press dirigida por Virginia Woolf e Leonard Woolf (se Joyce fosse editor era tamb&eacute;m prov&aacute;vel que recusasse o delicado&nbsp;<em style="">Orlando</em>).<br />Em alternativa, leia&nbsp;<em style="">A Tabacaria</em>&nbsp;com &laquo;Desespoir agr&eacute;able&raquo; de Satie como m&uacute;sica de fundo, e conven&ccedil;a-se que a posteridade saber&aacute; reconhecer os seus.<br /><strong style=""><br />Original Aceite</strong><br />Se o seu livro for aceite, &eacute; prov&aacute;vel que o editor tenha algumas sugest&otilde;es a fazer. Apesar de tudo, tente ser razo&aacute;vel. Se ele achar que poderia reduzir as 1000 p&aacute;ginas do original para, digamos, 930, n&atilde;o desate logo a falar em&nbsp;<em style="">Guerra e Paz</em>. E se o editor discordar que o nome dos personagens mudem de cap&iacute;tulo para cap&iacute;tulo, n&atilde;o invoque o santo nome de Agustina.<br /><br /><strong style="">Argumentos Extra-Liter&aacute;rios<br /></strong>Em rela&ccedil;&atilde;o a alguns editores pode avan&ccedil;ar argumentos extra-liter&aacute;rios. Se tencionar viver entre os papuas da Oce&acirc;nia, mudar de sexo ou assassinar algu&eacute;m ao virar da esquina, deve referi-lo, pois a cobertura medi&aacute;tica para o seu livro ficar&aacute; assegurada. Para certos editores o argumento &eacute; decisivo.<br /><br /><strong style="">O Contrato</strong><br />Depois de o seu original ser aprovado e discutidas eventuais sugest&otilde;es de altera&ccedil;&atilde;o (como sabe mais usuais nos pa&iacute;ses anglo-sax&oacute;nicos que nos latinos), n&atilde;o deve esquecer o contrato. Este pode ter trinta al&iacute;neas, mas s&oacute; quatro s&atilde;o importantes. Deve recusar a exclusividade e exigir a aprova&ccedil;&atilde;o da capa se n&atilde;o quiser apanhar um susto de letras douradas em relevo que o perseguir&aacute; o resto da vida. Ainda mais decisivo &eacute; o prazo de vig&ecirc;ncia e a percentagem de direitos a receber. A nossa lei de direito de autor estipula que na aus&ecirc;ncia de especifica&ccedil;&atilde;o a vig&ecirc;ncia de contrato &eacute; de 25 anos e os direitos autorais de 25 por cento.<br />Ou seja, nenhum editor se esquece de definir a percentagem de direitos, que normalmente vai de 10 a 12 por cento (nas edi&ccedil;&otilde;es de bolso esse valor pode ser de 5, para os &laquo;mais vendidos&raquo; alcan&ccedil;ar os 15 por cento e para e-books e audiolivros ainda n&atilde;o h&aacute; um valor habitual). Mas alguns editores &laquo;esquecem-se&raquo; do per&iacute;odo de vig&ecirc;ncia do contrato (cinco anos &eacute; um prazo razo&aacute;vel).<br /><br /><strong style="">O Lan&ccedil;amento</strong><br />Os lan&ccedil;amentos podem ser uma ocasi&atilde;o para o autor reunir os amigos. Mas s&oacute; no caso de ser tamb&eacute;m jornalista ter&aacute; assegurada a presen&ccedil;a dos&nbsp;<em style="">media</em>.<br />N&atilde;o insista com o editor para que intervenha. H&aacute; editores t&atilde;o reservados que prefeririam ser obrigados a ler um livro de F&aacute;tima Lopes a falar em p&uacute;blico.<br /><br /><strong style="">A Lealdade<br /></strong>No caso, prov&aacute;vel, de o seu primeiro livro ter vendas discretas, evite andar pelas livrarias a coloc&aacute;-lo em destaque nos expositores. Se passados seis meses deixar de o ver, n&atilde;o proteste junto do editor, pois s&atilde;o regras de mercado que ele tem dificuldade em contrariar.<br />Caso o seu livro seja um &ecirc;xito de vendas, evite que isso lhe suba &agrave; cabe&ccedil;a. N&atilde;o use o pretexto de uma gralha na p&aacute;gina 176 ou a aus&ecirc;ncia de exemplares num quiosque de Bragan&ccedil;a para negociar o seu pr&oacute;ximo livro com um grande grupo editorial, que provavelmente nunca publicou nenhum novo autor.<br />Afinal h&aacute; uma diferen&ccedil;a entre um editor que se preparou para acolher a radical novidade que &eacute; a descoberta de um autor e aquele que alinha o seu cat&aacute;logo pelos tops de vendas internacionais.<br /><br />Francisco Vale</div>  ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Avaliação dos Escritores e o Método das Estrelas]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-avaliao-dos-escritores-e-o-mtodo-das-estrelas.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-avaliao-dos-escritores-e-o-mtodo-das-estrelas.html#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Jan 2012 08:08:48 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-avaliao-dos-escritores-e-o-mtodo-das-estrelas.html</guid><description><![CDATA[Perdidos no labirinto de uma avalia&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica os professores protestam nas ruas. A sua contesta&ccedil;&atilde;o &eacute; p&uacute;blica, colectiva e vis&iacute;vel.Tudo &eacute; diferente com os escritores. Desde logo, e &agrave; excep&ccedil;&atilde;o de alguns jantares do Pen Clube, das Correntes d&rsquo;Escritas, do acolhedor de Paraty e das sess&otilde;es de aut&oacute;grafos da Leya, &eacute;  [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div  class="paragraph editable-text" style=" text-align: left; ">Perdidos no labirinto de uma avalia&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica os professores protestam nas ruas. A sua contesta&ccedil;&atilde;o &eacute; p&uacute;blica, colectiva e vis&iacute;vel.<br />Tudo &eacute; diferente com os escritores. Desde logo, e &agrave; excep&ccedil;&atilde;o de alguns jantares do Pen Clube, das Correntes d&rsquo;Escritas, do acolhedor de Paraty e das sess&otilde;es de aut&oacute;grafos da Leya, &eacute; gente pouco dada a aglomera&ccedil;&otilde;es. E, no entanto, tamb&eacute;m eles passaram da avalia&ccedil;&atilde;o qualitativa para outra em que &eacute; vis&iacute;vel uma express&atilde;o quantitativa. Os seus livros v&atilde;o agora de uma bola negra &agrave; cintila&ccedil;&atilde;o das cinco estrelas. A classifica&ccedil;&atilde;o que se justifica nos hot&eacute;is, onde &eacute; uma quest&atilde;o de tamanho de quartos e servi&ccedil;os de bar, e talvez fa&ccedil;a sentido nas estrelas do Guia Michelin &eacute; de todo inadequado para literatura e ensaio.<br />Na aprecia&ccedil;&atilde;o dos filmes, o star system ainda tem algum sentido at&eacute; porque s&atilde;o v&aacute;rios os cr&iacute;ticos a pronunciar-se, o que permite pelo menos conhecer o seu gosto depois de vermos os filmes. Mas &eacute; dif&iacute;cil encontrar v&aacute;rios cr&iacute;ticos dispon&iacute;veis para lerem, em tempo &uacute;til, o mesmo livro, sobretudo os com mais de duzentas p&aacute;ginas de letra poupada.<br />E o resultado &eacute; o que se sabe. Acompanha-se a tradicional aprecia&ccedil;&atilde;o qualitativa, intuitiva e eventualmente apaixonada de uma obra com uma grosseira avalia&ccedil;&atilde;o num&eacute;rica.<br />H&aacute; sempre leitores interessados nas cr&iacute;ticas antecedidas por quatro ou cinco estrelas e, por sadismo, nas que caem num &laquo;buraco negro&raquo;. Mas quem estar&aacute; disposto a ler a cr&iacute;tica antecedida com uma, duas, ou mesmo tr&ecirc;s estrelas, feita a um autor que se desconhece?<br />E se s&atilde;o atribu&iacute;das cinco estrelas a obras como o&nbsp;<em style="">London Fields</em>&nbsp;de Martin Amis, como ser&aacute; poss&iacute;vel classificar, na mesma escala, a&nbsp;<em style="">Odisseia</em>, o&nbsp;<em style="">Rei Lear</em>, o&nbsp;<em style="">D. Quixote</em>,&nbsp;<em style="">As Folhas de Erva</em>,&nbsp;<em style="">A Morte de Virg&iacute;lio</em>,&nbsp;<em style="">Em Busca do Tempo Perdido</em>&nbsp;ou o&nbsp;<em style="">Ulisses</em>?<br />Ou falando de ci&ecirc;ncia , se&nbsp;<em style="">A Evolu&ccedil;&atilde;o para Todos</em>&nbsp;de David Sloan tem cinco estrelas, quantas seriam necess&aacute;rias para classificar&nbsp;<em style="">A Origem das Esp&eacute;cies</em>&nbsp;ou&nbsp;<em style="">A Origem do Homem e a Selec&ccedil;&atilde;o Sexual</em>? Ser&aacute; que daqui a alguns s&eacute;culos ainda se ouvir&aacute; falar de<em style="">London Fields</em>&nbsp;e de David Sloan? N&atilde;o estaremos perante constela&ccedil;&otilde;es diferentes?<br />E ter&aacute; algum sentido l&oacute;gico que, por exemplo, Rog&eacute;rio Casanova atribua duas estrelas aos&nbsp;<em style="">Contos Completos I&nbsp;</em>de John Cheever e Eduardo Pitta lhes conceda cinco? Ser&aacute; Cheever duas vezes e meia melhor que Cheever, ou seja, ser&aacute; Cheever muito superior a si pr&oacute;prio?<br />Uma das poucas &laquo;vantagens&raquo; do m&eacute;todo das estrelas &eacute; evidenciar &laquo;absurdos&raquo; como os de um livro, com apenas duas estrelas, de Tom Wolfe,&nbsp;<em style="">Eu Sou a Charlotte Simmons</em>, ter um destaque gr&aacute;fico que est&aacute; de todo ausente em Di&aacute;rios de Viagem de Eduardo Salavisa, que fez o pleno no mesm&iacute;ssimo n&uacute;mero do Expresso.<br />Claro que lendo os textos dos cr&iacute;ticos talvez alguns destes absurdos, facilmente multiplic&aacute;veis, deixem de o ser. Mas isso n&atilde;o anula a confus&atilde;o gerada pelo m&eacute;todo quantitativo.<br />Este processo &eacute; ainda pior por se voltar contra os cr&iacute;ticos que o consentem. &Eacute; que o seu trabalho &eacute;, no melhor dos casos, uma disciplina da literatura, o ensaio liter&aacute;rio e, como tal, pass&iacute;vel de abertura &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o dos leitores. Ao pactuar com a avalia&ccedil;&atilde;o quantitativa, os cr&iacute;ticos est&atilde;o a tornar menos interessante a sua actividade fechando a porta da subjectividade na cara dos leitores.<br /><br />Francisco Vale</div>  ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Crítica dos Críticos II]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-ii.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-ii.html#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Jan 2012 08:07:02 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-ii.html</guid><description><![CDATA[A Vida Dif&iacute;cil dos Bons LivrosAnt&oacute;nio Guerreiro &eacute; um jornalista atento. Sem o seu trabalho muitas obras de poesia ou de ci&ecirc;ncias sociais seriam injustamente ignoradas.E, no entanto, o seu artigo publicado no&nbsp;Expresso&nbsp;de 1 de Maio, sobre a vida editorial, &eacute; redutor ao atribuir a factores como o excesso de produ&ccedil;&atilde;o e &agrave [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div  class="paragraph editable-text" style=" text-align: left; "><strong style="">A Vida Dif&iacute;cil dos Bons Livros</strong><br>Ant&oacute;nio Guerreiro &eacute; um jornalista atento. Sem o seu trabalho muitas obras de poesia ou de ci&ecirc;ncias sociais seriam injustamente ignoradas.<br>E, no entanto, o seu artigo publicado no&nbsp;<em style="">Expresso</em>&nbsp;de 1 de Maio, sobre a vida editorial, &eacute; redutor ao atribuir a factores como o excesso de produ&ccedil;&atilde;o e &agrave; comercializa&ccedil;&atilde;o livreira a responsabilidade principal pelas amea&ccedil;as &agrave; &laquo;sobreviv&ecirc;ncia de esp&eacute;cies bibliogr&aacute;ficas&raquo; e &agrave; sua &laquo;diversidade&raquo;.<br>O excesso de produ&ccedil;&atilde;o s&oacute; pode ser um fen&oacute;meno conjuntural sem consequ&ecirc;ncias a longo prazo. E o problema de &laquo;diversidade&raquo; no sector &eacute; o mesmo que existe para certos v&iacute;rus, ou seja, a diversidade at&eacute; tem aumentado mas criando esp&eacute;cies indesej&aacute;veis &ndash; o &laquo;vampirismo casto&raquo;, os variados drag&otilde;es, o realismo urbano imediatista, o g&eacute;nero &laquo;estrelas televisivas&raquo;, etc.<br>Por outro lado, o com&eacute;rcio livreiro n&atilde;o tem o poder de inflectir duravelmente a procura dos leitores e uma prova disso &eacute; que, quando uma delas, com uma &aacute;rea razo&aacute;vel num local central, exp&otilde;e apenas &laquo;livros de refer&ecirc;ncia&raquo;, acaba em fal&ecirc;ncia ingl&oacute;ria. O caso de &laquo;O Navio de Espelhos&raquo; &eacute; disso exemplo.<br>A raz&atilde;o principal para as melhores estantes das livrarias n&atilde;o estarem ocupadas por &laquo;bons livros&raquo;, resulta de um processo em que confluem tend&ecirc;ncias sociais e culturais de que s&atilde;o respons&aacute;veis espec&iacute;ficos o sistema de ensino, os media, os editores, os jornalistas, os autores e os livreiros.<br>Tendo como pano de fundo uma reprodutibilidade t&eacute;cnica que subtraiu &agrave;s obras de arte a aura da sua &laquo;distante proximidade&raquo;, a massifica&ccedil;&atilde;o de ensino e uma vida urbana que retira vagar e sil&ecirc;ncio &agrave; leitura, verifica-se a apropria&ccedil;&atilde;o por parte da sociedade do divertimento de um meio cultural prestigiado como o livro &ndash; hoje h&aacute; editoras especializadas em publicar figuras televisivas com audi&ecirc;ncias garantidas em prime time, juntando-lhe um ou outro escritor &laquo;s&eacute;rio&raquo; nada preocupado com a companhia.<br>Este processo &eacute; comum &agrave; generalidade dos pa&iacute;ses e levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de um p&uacute;blico em que a maioria prefere Paulo Coelho, Dan Brown ou Stephenie Meyer a Kafka, Cormac McCarthy ou mesmo Philip Roth. &Eacute; o surgimento, entre os leitores, de uma maioria que prefere livros apenas de divertimento que est&aacute; na origem da situa&ccedil;&atilde;o actual.<br>Em Portugal pesa ainda o facto de se ter mudado de uma sociedade quase iletrada para uma outra herteziana e digital, passando por cima da &laquo;Gal&aacute;xia de Gutenberg&raquo;. Isso sucedeu devido &agrave; fragilidade da nossa revolu&ccedil;&atilde;o industrial, que dispensou certas formas de literacia e conduziu de uma economia ruralizada para a actual sociedade de servi&ccedil;os.<br>Mas mesmo antes de chegarmos &agrave;s &laquo;culpas&raquo; espec&iacute;ficas do sector como as dos escritores, livreiros e editores, devemos falar dos media, onde se reduzem os espa&ccedil;os destinados aos livros e &eacute; quase imposs&iacute;vel encontrar um jornalista especializado em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Poder&iacute;amos citar dezenas de obras de &laquo;ci&ecirc;ncias duras&raquo; e &laquo;sociais&raquo; de refer&ecirc;ncia que n&atilde;o tiveram um segundo de aten&ccedil;&atilde;o nos media portugueses.<br>Por outro lado, o sistema de ensino desencoraja a leitura e a escrita, ou seja, n&atilde;o cria p&uacute;blicos para os g&eacute;neros referidos &ndash; e tamb&eacute;m para o teatro, poesia e artes pl&aacute;sticas.<br><br><strong style="">As Responsabilidades no Sector</strong><br>&Eacute; evidente que a &laquo;fuga em frente&raquo; do excesso de produ&ccedil;&atilde;o de alguns editores leva a que livros de qualidade fiquem submersos nas estantes das livrarias que tendem por isso a encurtar os &laquo;prazos de devolu&ccedil;&atilde;o&raquo;. H&aacute; mesmo grupos editoriais que praticam deliberadamente esse excesso de produ&ccedil;&atilde;o para asfixiar concorrentes. Mas como referimos isso n&atilde;o suprime as &laquo;obras de refer&ecirc;ncia&raquo; nem tem efeitos estruturais como os referidos por Ant&oacute;nio Guerreiro.<br>Por sua vez, os livreiros tentam impor condi&ccedil;&otilde;es que dificultam a vida &agrave;s editoras mais exigentes, aumentando as margens, exigindo um pagamento de espa&ccedil;os nas suas brochuras duas vezes mais caro que na New Yorker e procedendo &agrave;s devolu&ccedil;&otilde;es num prazo que n&atilde;o permite que a cr&iacute;tica possa ter efeito nas vendas. Isso contribui para a brilhante monotonia dos seus expositores.<br>Como, apesar de tudo, j&aacute; existe um p&uacute;blico para obras de qualidade, os livreiros poderiam retirar os &laquo;bons livros&raquo; dos esconsos, especializar-se em certas &aacute;reas, ou vender fundos em lojas amplas na periferia onde as rendas s&atilde;o mais acess&iacute;veis evitando naufr&aacute;gios como a da Byblos. Os livreiros s&atilde;o ainda respons&aacute;veis pelo facto de qualquer &laquo;livro televisivo&raquo; ter assegurado uma centena das suas melhores montras, independentemente do que l&aacute; venha escrito &ndash; s&oacute; isso explica que &laquo;o livro mais esperado do ano&raquo; possa ter uma autora sem &laquo;antecedentes&raquo; na escrita.<br>Mas se as livrarias ajudam ao eclipse dos &laquo;livros de refer&ecirc;ncia&raquo;, a verdade &eacute; que s&atilde;o sobretudo a sua express&atilde;o vis&iacute;vel no final de um processo.<br>Afinal quem publica os maus livros s&atilde;o os editores e quem faz as capas com letras douradas em relevo s&atilde;o os designers. E s&atilde;o autores os que escrevem essas obras e aprovam essas capas. E tudo isso porque h&aacute; leitores que os procuram.<br><br>Francisco Vale<br><br></div>  ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Crítica dos Críticos I* — Helena Vasconcelos e a «Grande Literatura»]]></title><link><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-i-helena-vasconcelos-e-a-grande-literatura.html]]></link><comments><![CDATA[http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-i-helena-vasconcelos-e-a-grande-literatura.html#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Jan 2012 08:02:12 -0800</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-i-helena-vasconcelos-e-a-grande-literatura.html</guid><description><![CDATA[No&nbsp;&Iacute;psilon&nbsp;de 30 de Abril, Helena Vasconcelos escreve sobre o&nbsp;Regresso do Soldado&nbsp;de Rebecca West, afirmando tratar-se de uma obra inscrita &laquo;no &acirc;mbito da literatura de guerra&raquo;, sendo pioneira na abordagem &laquo;dos efeitos do &ldquo;stress p&oacute;s traum&aacute;tico&rdquo;&raquo;. Conclui, no entanto, que &laquo;n&atilde;o pode ser considerada &ldq [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div  class="paragraph editable-text" style=" text-align: left; ">No&nbsp;<em style="">&Iacute;psilon</em>&nbsp;de 30 de Abril, Helena Vasconcelos escreve sobre o&nbsp;<em style="">Regresso do Soldado</em>&nbsp;de Rebecca West, afirmando tratar-se de uma obra inscrita &laquo;no &acirc;mbito da literatura de guerra&raquo;, sendo pioneira na abordagem &laquo;dos efeitos do &ldquo;stress p&oacute;s traum&aacute;tico&rdquo;&raquo;. Conclui, no entanto, que &laquo;n&atilde;o pode ser considerada &ldquo;grande literatura&rdquo;&raquo;.<br />Helena Vasconcelos comete um duplo erro.<br />Dizer que&nbsp;<em style="">O Regresso do Soldado</em>&nbsp;&eacute; pioneira na abordagem do &laquo;stress p&oacute;s traum&aacute;tico&raquo; &eacute; passar ao lado, &eacute; como dizer que&nbsp;<em style="">O Cora&ccedil;&atilde;o Solit&aacute;rio Ca&ccedil;ador</em>&nbsp;de Carson McCullers inicia a &laquo;literatura dos deficientes&raquo;, s&oacute; porque os personagens, Singer e Anton&oacute;poulo, s&atilde;o dois jovens mudos.<br />A tens&atilde;o dram&aacute;tica em&nbsp;<em style="">O Regresso do Soldado</em>&nbsp;tem a ver com a destrui&ccedil;&atilde;o das paix&otilde;es adolescentes pelo t&eacute;dio calculada da vida adulta. O trauma sofrido por Christopher nas trincheiras confere &agrave; narrativa uma dimens&atilde;o de actualidade, mas &eacute; algo de instrumental &ndash; por exemplo em&nbsp;<em style="">The Revolutionary Road</em>&nbsp;de Richard Yates, a circunst&acirc;ncia dessa ruptura dram&aacute;tica &eacute; a desist&ecirc;ncia de Frank Wheeler em partir para Paris com a mulher devido a uma promo&ccedil;&atilde;o no emprego.<br />Por outro lado, a recusa de Helena Vasconcelos em considerar&nbsp;<em style="">O Regresso do Soldado&nbsp;</em>&laquo;grande literatura&raquo; n&atilde;o pretende ser uma abordagem te&oacute;rica, no sentido em que se discutiu numa dada &eacute;poca se os&nbsp;<em style="">ready-mades</em>&nbsp;de Duchamp eram ou n&atilde;o obras de arte. Helena Vasconcelos d&aacute; raz&atilde;o aos cr&iacute;ticos que acham que Rebecca West &laquo;escrevia demais, descurando, por vezes, a qualidade&raquo;. &Eacute; pena que Helena Vasconcelos, que enumera os amigos e amantes intelectuais de Rebecca West, n&atilde;o indique de que cr&iacute;ticos se trata, nem aborde outras importantes obras de West, como&nbsp;<em style="">The Birds Fall Down</em>,&nbsp;<em style="">Harriet Hume</em>&nbsp;ou&nbsp;<em style="">The Thinking Reed</em>, dando exemplos de tal inc&uacute;ria.<br />Considero&nbsp;<em style="">O Regresso do Soldado</em>&nbsp;uma dessas raras novelas quase perfeitas e, sem querer usar o argumento de autoridade, devo dizer que sou acompanhado pelos cr&iacute;ticos do&nbsp;<em style="">El Pa&iacute;s</em>&nbsp;que, no balan&ccedil;o do ano liter&aacute;rio de 2008, a colocaram em primeiro lugar entre as dez melhores obras de fic&ccedil;&atilde;o, injustamente esquecidas, publicadas em Espanha.<br />&Eacute; uma novela breve que se caracteriza pelo despojamento da linguagem, a tens&atilde;o narrativa e a subtileza das situa&ccedil;&otilde;es, personagens e desenlace. Desafiamos qualquer leitor a apontar uma frase em excesso.<br /><em style="">O Regresso do Soldado</em>&nbsp;tem uma perfei&ccedil;&atilde;o compar&aacute;vel a&nbsp;<em style="">Os Adeuses</em>&nbsp;de Onetti, ao<em style="">Falc&atilde;o Peregrino</em>&nbsp;de Glenway Wescott, &agrave;&nbsp;<em style="">Balada do Caf&eacute; Triste</em>&nbsp;de Carson McCullers, ao&nbsp;<em style="">Golpe de Miseric&oacute;rdia</em>&nbsp;de Marguerite Yourcenar, a&nbsp;<em style="">Pedro P&aacute;ramo</em>&nbsp;de Juan Rulfo, a<em style="">Um Copo de C&oacute;lera</em>de Raduar Nassar, a&nbsp;<em style="">Djamila</em>&nbsp;de Aikmatov e a&nbsp;<em style="">O Primeiro Amor</em>&nbsp;de Turgu&eacute;niev (entre n&oacute;s podemos referir apenas, e a alguma dist&acirc;ncia,&nbsp;<em style="">O Bar&atilde;o</em>&nbsp;de Branquinho da Fonseca ou&nbsp;<em style="">A Paix&atilde;o</em>de Almeida Faria).<br />S&oacute; n&atilde;o &eacute; caso para desejarmos que se aplique a Helena Vasconcelos a conhecida frase de Oscar Wilde (&laquo;quando li o cr&iacute;tico odiei o livro, quando li o livro odiei o cr&iacute;tico&raquo;), porque se trata de algu&eacute;m que, noutras ocasi&otilde;es, tem divulgado a melhor literatura.<br /><br />* A &laquo;cr&iacute;tica dos cr&iacute;ticos&raquo; &eacute; algo que escasseia em Portugal, embora, claro, para um editor s&oacute; tenha sentido quando se trata de autores que j&aacute; n&atilde;o se podem defender.<br /><br />Francisco Vale</div>  ]]></content:encoded></item></channel></rss>

