<![CDATA[Relógio D'Água Editores - Do Editor]]>Wed, 22 May 2013 15:00:14 -0800Weebly<![CDATA[O ritmo cardíaco de Jack Kerouac]]>Mon, 07 Jan 2013 14:50:30 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2013/01/o-ritmo-cardaco-de-jack-kerouac.html
O que distinguiu Jack Kerouac como autor foi a sua decisão de viver as sensações sobre as quais desejava escrever. Frequentou regiões novas da consciência para delas dar testemunho e pagou por isso. Daí que tenha sido o principal criador e o primeiro dissidente da geração beat.

Pela Estrada Fora ligou emoções a alta velocidade a uma escrita a que Kerouac chamou «prosa espontânea» e que procurava captar a evanescente matéria da vida. O romance foi de Nova Iorque a São Francisco através da estrada 66, ligando influências ocidentais e orientais, o Atlântico ao Pacífico, o cristianismo ao budismo zen, num tenso arco narrativo.

Mas o autor de Tristessa foi também a ilustração do verso inicial de «Uivo» de Allen Ginsberg, «Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos pela loucura (…)», cuja leitura na Six Gallery, em Outubro de 1955, foi a certidão pública de nascimento da geraçãobeat.

O primeiro livro que Kerouac publicou, The Town and the City (1950), escrito ao longo de três anos, era influenciado pelo naturalismo de Thomas Wolfe. Teve favorável acolhimento crítico, mas Kerouac entrou em ruptura com o seu estilo, sob a influência de Neal Cassady. Foram as cartas que este lhe escreveu, «todas na primeira pessoa, velozes, loucas, confessionais, seríssimas», o relâmpago que iluminou a escrita de Kerouac. A partir daí, acelerou a sua velocidade pessoal, com as viagens automobilísticas, os empregos precários, a marijuana e o jazz, de modo a sentir plenamente as emoções que pretendia narrar. E procurou escrever sobre elas antes de poderem ser elaboradas pela memória e trabalhadas pelo estilo. Viveu ao ritmo das batidas do coração, em uníssono com todo um grupo de escritores e poetas publicados na City Lights de Ferlinghetti.

Morreu aos 47 anos, solitário, alcoolizado e caótico, em San Petersburg, Florida, destruído pelas contradições, ao procurar fazer de si mesmo um herói à altura dos protagonistas da sua ficção (escreveu um ciclo autobiográfico com um lendário Duluoz, que era ele próprio).

A primeira contradição foi a de ter sido um desportista que se tornou escritor. Na adolescência, em Lowell, praticava a corrida e o beisebol, o que lhe valeu uma bolsa para a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, aos 18 anos. A carreira foi interrompida por uma lesão, o que o levou a alistar-se na marinha mercante e, mais tarde, na militar. Foi no regresso a Nova Iorque, aos 24 anos, que mergulhou na vida nocturna da cidade, na frequência das prostitutas, na droga e na amizade com Allen Ginsberg e William Burroughs e com delinquentes interessados na vida literária como Lucien Carr, Neal Cassady e Gregory Corso, uma vida em aberto conflito com as exigências do desporto.

Por outro lado, o Kerouac das viagens através dos EUA e do México, o marinheiro que, em 1943, em plena guerra, realizou perigosas viagens entre Boston e Liverpool, manteve sempre uma umbilical relação com a mãe e a casa familiar. Essa terá sido mesmo uma das razões para o fracasso dos seus dois primeiros casamentos (viveu os seus últimos anos com a terceira mulher Stella, amiga de infância, na casa da mãe, já inválida).

E há também a contradição entre a velocidade americana com que escreveu a versão final de Pela Estrada Fora (num rolo de 36,5 m para não perder tempo a mudar a folha na máquina de escrever) e Os Subterrâneos (três noites de que saiu exausto e «cor de laranja») e a delicada lentidão com que compôs numerosos haiku, esses poemas japoneses de três versos e dezassete sílabas, em que a procura de uma palavra pode requerer dias de meditação.

Em relação com esta bipolaridade literária, há uma outra, existencial e filosófica. Kerouac fez tudo para estimular os seus desejos. Mas ao mesmo tempo procurou no seu impreciso budismo zen a espécie de aniquilamento do desejo e até do eu que o budismo promete.

Kerouac era subversivo em termos pessoais e atravessou quase todas as fronteiras delineadas pelos preconceitos sexuais e étnicos dos Estados Unidos de então. Foi não apenas amigo, mas amante de Allen Ginsberg. Viajou partilhando o saco-cama com Gary Snyder, poeta que é hoje o único sobrevivente da geração beat. Ajudou o seu amigo Lucien Carr a encobrir o cadáver de um homem que este assassinara (foi preso por isso e o seu casamento com Edie Parker foi a exigência do sogro para lhe pagar a fiança). O seu companheiro da estrada 66, Neal Cassady, era versado em reformatórios e citações avulsas de Nietzsche. Kerouac viveu algum tempo com Esperanza, uma prostituta mexicana morfinómana que lhe inspirou Tristessa. A sua maior paixão terá sido uma rapariga negra de Nova Iorque, que surgirá como índia de São Francisco em Os Subterrâneos. Revelou enorme aptidão para consumir álcool, marijuana, benzedrina e cactos mexicanos ricos em mescalina. Mas, filho de emigrantes franco-canadianos originários da Bretanha, Kerouac sentia gratidão pelo modo como haviam sido acolhidos nos EUA. Nos últimos anos da sua vida, demarcou-se do movimento hippie, que ajudara a criar, partilhando com o poeta Gary Snyder a mochila, a nudez em grupo, a natureza e o misticismo oriental. Foi também apoiante da intervenção dos EUA no Vietname, apesar da sua recusa de todas as guerras. E criticou o aproveitamento que estaria a ser feito do movimento beat por esquerdistas, entre os quais o próprio Allen Ginsberg.

E, finalmente, há a contradição entre o autor geracional e o clássico.

É fácil considerar Kerouac um escritor geracional, pois a receptividade aos seus livros foi imediata, como se «uma geração inteira estivesse à espera de ser escrita» (William Burroughs). Kerouac era um narrador mais interessado em agarrar o leitor pelas entranhas, pelo ritmo e a emoção, do que pela elaboração estética associada à grande literatura.

No entanto, Pela Estrada Fora foi um dos cem melhores livros em língua inglesa do séculoxx na lista da Modern Library e a recente recuperação do «rolo original» constituiu um acontecimento editorial que atravessou o Atlântico. E mais de meio século após a edição do romance, podemos ver o filme que sobre ele fez Walter Salles. E ainda em 2013 Big Sur será igualmente adaptado ao cinema.


Francisco Vale
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<![CDATA[Philip Roth regressa à vida]]>Mon, 07 Jan 2013 11:59:55 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2013/01/philip-roth-regressa-vida.html
«Não quero ler mais ficção, escrever mais ficção, nem mesmo falar mais de ficção. Dediquei a minha vida ao romance: estudei-o, ensinei-o, escrevi-o e li-o. Em detrimento de praticamente tudo mais. Basta! (…) É-me impossível pensar em voltar à escrita.» Em Les Inrockuptibles.

Estas afirmações de Philip Roth foram confirmadas em entrevista ao The New York Times e causaram alvoroço.

Muñoz Molina afirmou que não acredita que um romancista deixe deliberadamente de escrever. E não faltaram os que em tom jocoso condescenderam em que o autor de A Conspiração contra a América tem todo o direito de passar os dias diante do televisor.

Nada indica que as declarações de Roth se destinem a chamar a atenção sobre uma obra que corre o risco de ser esquecida, como sucede com as falsas despedidas das divas, cuja voz esmorece.

Roth tem agora 79 anos. Os seus melhores livros, Pastoral AmericanaCasei com Um Comunista e, sobretudo, o Teatro de Sabbath, foram publicados nos anos noventa do século passado. A sua última grande obra, A Mancha Humana, é de 2000. Os livros mais recentes abundam em descrições de doenças e imagens de cerimónias fúnebres judaicas. Com excepção de O Animal Moribundo, revelam cansaço nos temas e incorrem em repetições. O próprio sexo deixou de ter a urgência subversiva que possuía em O Complexo de Portnoy. Os fantasmas tornaram-se previsíveis, o virtuosismo técnico substituindo a originalidade. «Envelhecer não é uma luta, mas um massacre», como ele próprio escreveu.

A verdade, porém, é que mesmo nos seus melhores tempos Philip Roth publicou obras menores como Our Gang, The Breast Deception. Mas depois foi capaz de escrever oTeatro de Sabbath (1995), que James Wood saudou como a obra-prima que realmente é. ENemésis, acabado de sair, é superior a alguns dos seus outros livros.

As razões literárias para o abandono da ficção parecem assim faltar.

E, além disso, não será o impulso de escrever incontrolável? Um romancista não é como um jogador de futebol que a dada altura esbarra em dados objectivos, os passes falhados, a incapacidade de aguentar os noventa minutos, assobios em vez de aplausos. Não dependerá um escritor de uma vontade que o transcende, daquilo a que os antigos chamavam musas, Freud, inconsciente, e outros, a inspiração?

É certo haver casos de abandono voluntário da escrita, até precoces, como o de Rimbaud. Muitos criadores escaparam, porém, ao veredicto da idade. Manoel de Oliveira continua a filmar com mais de cem anos e Clint Eastwood promete imitá-lo. Picasso mantinha uma vitalidade de fauno aos 90 anos. Foi um Saramago já fragilizado pela doença que aos 87 anos publicou Caim. Dalton Trevisan continua a recriar o erotismo pícaro brasileiro aos 88 anos. Um Oscar Niemeyer, prestes a fazer 104 anos, discutia no quarto do hospital os seus projectos com engenheiros e arquitectos. Cardoso Pires ficcionou o seu processo de morte em De Profundis — Valsa Lenta. São autores que morrem com a armadura posta, que caem no seu posto de combate como G. T. Ballester disse de Fernando Assis Pacheco, ao saber que este falecera diante de uma livraria.

Mas é possível que Roth não tenha essa têmpera e seja preferível seguir neste caso a máxima de Oscar Wilde para quem só as «pessoas superficiais não julgam pelas aparências». Talvez em Roth tenha despertado o rancor pela ficção, algo semelhante aoodium professionis que acomete os monges após décadas de vida claustral, uma súbita aversão à disciplina que conformou as suas vidas (James Wood designou certa vez Roth por «monge fornicador»).

Que há de mais natural que um homem da sua idade esteja cansado de escrever e até de ler ficção? Que queira escapar à maldição de nunca ter vivido a vida como ela é para quase todos? Que já não queira ver as pessoas com a distância e o desdobramento do observador que em tudo espreita a matéria das suas ficções? Como escreveu Ortega, «a percepção da realidade vivida e a percepção artística são, em princípio, incompatíveis». Uma súbita aversão à escrita ficcional pode ocorrer mesmo num autor de cultura judaica com uma particular relação com o texto, não sendo necessário insistir nos sinais de niilismo que povoam a obra de Roth.

Qualquer passeante da Quinta Avenida poderá encontrar uma destas tardes um despreocupado Roth, a caminho do cinema, de um bar ou de parte alguma.

Já agora um conselho, pois todo o cuidado é pouco com o assalto das musas: que não escute as conversas de quem passa, não responda ao sorriso da arrumadora do cinema, não brinque com os esquilos do Central Park e evite até as doenças. E claro, em caso de insónia, não deixe que a memória tacteie no passado — vá para a sala e prepare uma bebida ao som de uma música qualquer.


Francisco Vale
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<![CDATA[Masoquismo na APEL]]>Mon, 30 Apr 2012 14:44:10 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/04/masoquismo-na-apel.html
Não, não estou a sugerir que no 6.º andar do n.º 27 da Av. dos Estados Unidos da América os directores da APEL se dedicam a práticas de autoflagelação em meio da habitual parafernália de blusões negros, chicotes e algemas.
A autoflagelação a que me refiro não vem de profundezas do inconsciente, mas do céu, ou mais exactamente das nuvens.
Tal como sucedeu o ano passado, a Feira do Livro de Lisboa abre sob a chuva, a humidade e o frio que afasta visitantes e ameaça livros e sessões de autógrafos. Entretanto, o efeito da promoção dissipa-se.
Muitos de nós têm já nostalgia da Feira de Lisboa percorrida em tardes de sol, onde à sombra de um castanheiro-da-índia podíamos ler algum desses clássicos russos que ajudaram a formar o nosso itinerário sentimental.
Deixou de ser assim porque a APEL insiste em realizar a Feira entre a última semana de Abril e meados de Maio. Ora é estatisticamente mais provável ocorrer chuva nesse período do que, por exemplo, entre 3 e 20 de Maio, que tem ainda a vantagem dos jacarandás floridos no Parque Eduardo VII. Não é só a meteorologia a dizê-lo. A sabedoria popular fala de «Abril, águas mil» e a poética, através T. S. Eliot, refere que «Abril é o mês mais cruel» (…), «agita raízes dormentes com chuva da Primavera».
Que explica então este reiterado masoquismo anual? A APEL certamente dirá que, sendo os pavilhões da Feira do Livro do Porto os mesmos de Lisboa, não se pode empurrar aquela feira para o Verão e a dispersão das férias. Mas que mal haveria em realizá-la entre, digamos, 8 e 24 de Junho?
De resto, não se entende porque não se alterna entre as duas cidades o início das Feiras. Como há muito menos pavilhões no Porto, no ano em que a Feira começasse a norte, poder-se-ia mesmo avançar a sua montagem em Lisboa, estreitando o prazo entre as feiras, e permitindo assim que acabassem mais cedo.
E já agora, sendo cada vez menos as inscrições para a Feira do Porto, porque não adiá-las de modo a poderem ser feitas já com as receitas recolhidas na de Lisboa? É que o aluguer dos pavilhões é bem mais caro que o de uma suíte num bem situado hotel de Manhattan ou mesmo de Luanda.

Francisco Vale
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<![CDATA[2011, balanço de um ano indeciso]]>Tue, 03 Jan 2012 16:13:52 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/2011-balano-de-um-ano-indeciso.html
Em 2011, editores, críticos e até autores insistiram nos gestos habituais como se nada à sua volta se houvesse alterado.
O novo Acordo Ortográfico foi recebido com a mesma resignada acrimónia com que o camponês acolhe o mau tempo. E o lançamento de plataformas para distribuição de e-books quase não evoluiu, deixando-se a iniciativa da reestruturação do sector a empresas que lhe são alheias, como a Google.

Editores
Na edição há a destacar a feliz entrada na ficção portuguesa da Tinta-da-China, com obras de Maria Dulce Cardoso e Mário de Carvalho, e as publicações da Ahab, que prolonga nas suas escolhas a lacónica exactidão do seu nome.
Algumas editoras de poesia, da Averno à Alma Azul, lançaram novos autores, interessantes mas a necessitarem de confirmação.
As ex-editoras independentes, integradas naLeya ou na Porto Editora, usaram os meios financeiros acrescidos de que agora dispõem para disputarem autores às editoras que se mantiveram à margem do processo de concentração. O resultado foi o agravamento da crise de algumas destas e que o ensaio, sobretudo o relacionado com o actual estado de coisas, fosse ignorado num autismo editorial sem paralelo europeu.
Dois acontecimentos singulares abalaram a vida editorial.
O primeiro foi o desmoronamento da Babel — quem não se lembra do seu conselho editorial integrado por dezenas de intelectuais e da meteórica ascensão do seu director a presidente da APEL?
O episódio parece nada ter a ver com uma qualquer maldição bíblica, mas com a tentativa de aplicar métodos de gestão financeira a um sector com regras próprias. Nem Pessoa, nem Heinrich Böll ou os seus leitores parecem dar-se bem com túneis megalómanos como o que a Babellevou à feira do livro de Lisboa.
Outro acontecimento significativo ocorreu com a Difel. O seu fim e rápida dispersão dos despojos, de Umberto Eco a Isabel Allende, revela a vulnerabilidade de catálogos baseados na ficção traduzida, num período em que as agências internacionais impõem contratos com prazos de vigência cada vez menores.

Críticos
Os críticos continuaram a privilegiar no seu balanço anual a ficção, poucos deles se mostrando disponíveis para lidar com o ensaio e a ciência. 
Nesta paisagem pouco diversa, não é de estranhar que se tenha confirmado a importância de um crítico e um escritor que não concebem ficção sem ideias.
É o caso de Rogério Casanova, sempre brilhante quando não troca o seu papel de crítico com sentido de humor pelo humor sem sentido. Um exemplo é dado pelos textos que publicou na Ler de Dezembro. Além da análise que faz sobre Vida e Destino, de Vassili Grossman, escreveu o artigo mais consistente que sobre o recém-falecido Christopher Hitchens saiu na imprensa portuguesa. Ao contrário de textos acríticos e até de algumas colagens, Rogério Casanova fala da banalidade de um trajecto político feito entre o estrépito das polémicas e de erros de análise que não diminuem o interesse pelas reflexões que os acompanharam.
Na literatura a confirmação é Gonçalo M. Tavares, em deliberada ruptura com as tradições sentimentais da literatura portuguesa, uma linguagem despojada que soube integrar no seu universo pessoal as tradições do romance centro-europeu de entre guerras, de Kafka a Robert Walser.

E 2012?
Nada, neste início de ano, anuncia alterações drásticas no sector editorial.
Apenas, como é usual em períodos de crise, os editores reduzem os títulos e as tiragens e os livreiros alargam as promoções. Alguns dos fãs de José Rodrigues dos Santos e de Margarida Rebelo Pinto parecem começar a ter dúvidas se eles serão mesmo esses génios da literatura cujo último romance é preciso comprar a correr. Esta dúvida seria mesmo um dos poucos sinais de esperança para a literatura neste início de 2012.

Francisco Vale

(imagem de Max Ernst)



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<![CDATA[Como Editar Um Primeiro Livro]]>Tue, 03 Jan 2012 16:10:16 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/como-editar-um-primeiro-livro.htmlSe deseja ser escritor tem de aceitar o risco de nunca viver do que escreve – em Portugal, só meia dúzia de autores o conseguem.
Para quem quiser enriquecer o caminho é outro. Caso não tenha idade para uma academia de futebol, nem «estômago» para fazer carreira nas juventudes partidárias, pode sempre tentar descobrir um enredo esotérico que envolva a Ordem dos Templários ou uma rainha portuguesa infeliz e ardente. Neste caso, ninguém se lembrará de si dentro de dez anos, mas será considerado escritor por alguns amigos mais condescendentes e pelos habituais leitores do género.

A Formação
Na avaliação das suas possibilidades tem de ter em conta a formação. Mais de metade dos escritores que temos cursaram as diversas Filologias ou Direito.
Mas se for um auto-didacta, nem por isso deve desistir. Afinal José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Alexandre O’Neill deram boa conta de si.
Outro aspecto a ter em conta é a relação que se tem com o mundo editorial.
Se conhece um editor pode sempre convidá-lo para almoçar e, na altura do café, depois de terem lembrado episódios dos agitados anos setenta, dizer qualquer coisa como: «Lembras-te daquele conto que publiquei na revista da Faculdade? Sabes, tenho andado a escrever umas coisas...»
Se não conhece ninguém, tente os prémios revelação ou o envio do original pelo correio.

Os Prémios Literários…
Há vários modos de obter um prémio literário.
O primeiro é tentar escrever um livro diferente ou melhor do que todos os que já leu, avaliando cada palavra e sentindo o ritmo das frases, tacteando os limites da imaginação. Alguns autores começaram com prémios revelação. Foi o caso de Almeida Faria, com Rumor Branco. Também Agustina editou na Guimarães Mundo Fechadodepois de ter vencido um concurso literário. O mesmo sucedeu com Ana Teresa Pereira e Matar a Imagem.
Mas esse é um caminho incerto e, para usar a expressão de Philip Roth, são poucos os jovens escritores para quem «as dificuldades são uma espécie de divindade».
Aos impacientes sugerimos dois atalhos.
O primeiro é percorrer dia e noite a rua onde mora Gonçalo M. Tavares, esperando encontrar uma mochila perdida com algum original – afinal é o autor que mais prémios tem recebido. O outro é enviar para concurso um romance que imite descaradamente o estilo de Vasco Graça Moura, que está em pelo menos metade dos júris literários, esperando que ele convença os seus pares de que estão perante um enorme talento (neste caso, é inconveniente usar o novo Acordo Ortográfico).

… E o Modo de os Receber
No caso de o prémio lhe ser atribuído, pode limitar-se a agradecer o «estímulo» ou adoptar uma atitude à Thomas Bernhard, a do mendigo insolente, comprando um fato para a cerimónia e insultando o júri, a literatura oficial e o país.
Há ainda uma atitude intermédia, a de pedir ao editor que o represente. Caso deseje fazer carreira no Jornal de Letras, pode justificar a sua ausência com uma viagem aos palácios do Grande Canal em Veneza ou ao Campanile de Giotto em Florença. Se lhe interessa mais a Câmara Clara, justifique-se com uma ida a Nova Iorque para ver no MoMA uma retrospectiva de Rothko.

O Envio do Manuscrito por Correio
Ao enviar o manuscrito para o editor, deve ter em conta que manuscrito é um modo de dizer.
Nos tempos que correm, nenhum editor lhe perdoará – a não ser que o autor tenha mais de noventa anos – o envio de um texto manuscrito ou mesmo teclado à máquina. Tudo é mais fácil, sobretudo se o original vier a ser publicado, com um texto em suporte digital acompanhado pela respectiva impressão (o original deve ser endereçado ao próprio editor).
Além disso, é preciso saber escolher a editora. Se é influenciado por Bukowski e Henry Miller não vale a pena pensar na Gaialivro, que publica histórias onde até os vampiros são castos. Se colecciona autógrafos de Margarida Rebelo Pinto, tente logo a Oficina do Livro.

A Edição de Autor
Tradicionalmente, o autor cujo original era várias vezes recusado imprimia a obra à sua custa (ou aceitava participar nas despesas da editora o que ocultava muitas vezes um negócio obsceno).
O caso mais famoso de autoedição é o de Miguel Torga.
Hoje, com o desenvolvimento conjunto da Internet e da impressão digital, a edição de autor aproxima-se já, em número de títulos, da edição normal em países como os EUA.
Algumas companhias como a Creative Space da Amazon produzem obras cobrando os custos de impressão e partilhando os lucros. Em 2008, a Author Solutions publicou 13 mil títulos, atingindo os 2,5 milhões de exemplares, em parte distribuídos através da Amazon ou acessíveis no site da maior cadeia de livrarias norte-americana, a Barnes & Noble.
Na Europa, onde as tradições culturais são diferentes, o movimento é incipiente, no que se refere à ficção narrativa e poesia. No entanto, algumas livrarias britânicas dispõem já de serviços de impressão a pedido, que podem servir a autoedição.
Dados os riscos financeiros e tempo que exige, a autoedição só deve ser encarada pelos autores recusados pelas editoras «tradicionais» que tenham uma nítida convicção do seu talento.

O Título
O título deve merecer um cuidado particular. Bruscamente no Verão PassadoO Jardim dos Caminhos Que Se BifurcamÀ Sombra das Raparigas em Flor ou A Senhora Smilla e a Sua Especial Percepção da Neve são títulos que fizeram muito pelas respectivas obras.
O início do livro pode ser decisivo. Nas editoras de menor dimensão a leitura é feita pelos próprios directores que vão decidir se continuam depois de ler dez páginas.
De qualquer modo, têm de ser originais, pelo que não é boa ideia começar com: «Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: “Vou adormecer.”»
Na poesia evite confundir versos com bons sentimentos e não acredite que somos um país de poetas. E não lhe fará mal seguir o conselho de Virginia Woolf em Carta a Um Jovem Poeta: «Nunca publique nada antes dos 30 anos.»

A Espera
Enviado o original, tem de saber esperar. Mostrar impaciência passada uma semana é mau sinal. E esperar mais de seis meses revela falta de convicção. O melhor é informar-se dos prazos junto do editor (são poucos os que em Portugal têm o apoio de Comissões de Leitura).
Mas o principal é saber que apenas um em mil originais será aceite. De qualquer modo, envie o seu para vários editores. As possibilidades aumentam e se um deles o aceitar poderá sempre ter o prazer de explicar aos outros que lamenta mas...
Em caso de recusa, pode pensar que o editor é um incompetente, o que pode muito bem ser o caso. Em Busca do Tempo PerdidoDebaixo do VulcãoUma Conspiração de Estúpidos e Levantado do Chão, integram a longa lista de originais recusados. Até os melhores se enganam. Basta lembrar que o Ulisses foi recusado pela Hogarth Press dirigida por Virginia Woolf e Leonard Woolf (se Joyce fosse editor era também provável que recusasse o delicado Orlando).
Em alternativa, leia A Tabacaria com «Desespoir agréable» de Satie como música de fundo, e convença-se que a posteridade saberá reconhecer os seus.

Original Aceite

Se o seu livro for aceite, é provável que o editor tenha algumas sugestões a fazer. Apesar de tudo, tente ser razoável. Se ele achar que poderia reduzir as 1000 páginas do original para, digamos, 930, não desate logo a falar em Guerra e Paz. E se o editor discordar que o nome dos personagens mudem de capítulo para capítulo, não invoque o santo nome de Agustina.

Argumentos Extra-Literários
Em relação a alguns editores pode avançar argumentos extra-literários. Se tencionar viver entre os papuas da Oceânia, mudar de sexo ou assassinar alguém ao virar da esquina, deve referi-lo, pois a cobertura mediática para o seu livro ficará assegurada. Para certos editores o argumento é decisivo.

O Contrato
Depois de o seu original ser aprovado e discutidas eventuais sugestões de alteração (como sabe mais usuais nos países anglo-saxónicos que nos latinos), não deve esquecer o contrato. Este pode ter trinta alíneas, mas só quatro são importantes. Deve recusar a exclusividade e exigir a aprovação da capa se não quiser apanhar um susto de letras douradas em relevo que o perseguirá o resto da vida. Ainda mais decisivo é o prazo de vigência e a percentagem de direitos a receber. A nossa lei de direito de autor estipula que na ausência de especificação a vigência de contrato é de 25 anos e os direitos autorais de 25 por cento.
Ou seja, nenhum editor se esquece de definir a percentagem de direitos, que normalmente vai de 10 a 12 por cento (nas edições de bolso esse valor pode ser de 5, para os «mais vendidos» alcançar os 15 por cento e para e-books e audiolivros ainda não há um valor habitual). Mas alguns editores «esquecem-se» do período de vigência do contrato (cinco anos é um prazo razoável).

O Lançamento
Os lançamentos podem ser uma ocasião para o autor reunir os amigos. Mas só no caso de ser também jornalista terá assegurada a presença dos media.
Não insista com o editor para que intervenha. Há editores tão reservados que prefeririam ser obrigados a ler um livro de Fátima Lopes a falar em público.

A Lealdade
No caso, provável, de o seu primeiro livro ter vendas discretas, evite andar pelas livrarias a colocá-lo em destaque nos expositores. Se passados seis meses deixar de o ver, não proteste junto do editor, pois são regras de mercado que ele tem dificuldade em contrariar.
Caso o seu livro seja um êxito de vendas, evite que isso lhe suba à cabeça. Não use o pretexto de uma gralha na página 176 ou a ausência de exemplares num quiosque de Bragança para negociar o seu próximo livro com um grande grupo editorial, que provavelmente nunca publicou nenhum novo autor.
Afinal há uma diferença entre um editor que se preparou para acolher a radical novidade que é a descoberta de um autor e aquele que alinha o seu catálogo pelos tops de vendas internacionais.

Francisco Vale ]]>
<![CDATA[A Avaliação dos Escritores e o Método das Estrelas]]>Tue, 03 Jan 2012 16:08:48 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-avaliao-dos-escritores-e-o-mtodo-das-estrelas.htmlPerdidos no labirinto de uma avaliação burocrática os professores protestam nas ruas. A sua contestação é pública, colectiva e visível.
Tudo é diferente com os escritores. Desde logo, e à excepção de alguns jantares do Pen Clube, das Correntes d’Escritas, do acolhedor de Paraty e das sessões de autógrafos da Leya, é gente pouco dada a aglomerações. E, no entanto, também eles passaram da avaliação qualitativa para outra em que é visível uma expressão quantitativa. Os seus livros vão agora de uma bola negra à cintilação das cinco estrelas. A classificação que se justifica nos hotéis, onde é uma questão de tamanho de quartos e serviços de bar, e talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin é de todo inadequado para literatura e ensaio.
Na apreciação dos filmes, o star system ainda tem algum sentido até porque são vários os críticos a pronunciar-se, o que permite pelo menos conhecer o seu gosto depois de vermos os filmes. Mas é difícil encontrar vários críticos disponíveis para lerem, em tempo útil, o mesmo livro, sobretudo os com mais de duzentas páginas de letra poupada.
E o resultado é o que se sabe. Acompanha-se a tradicional apreciação qualitativa, intuitiva e eventualmente apaixonada de uma obra com uma grosseira avaliação numérica.
Há sempre leitores interessados nas críticas antecedidas por quatro ou cinco estrelas e, por sadismo, nas que caem num «buraco negro». Mas quem estará disposto a ler a crítica antecedida com uma, duas, ou mesmo três estrelas, feita a um autor que se desconhece?
E se são atribuídas cinco estrelas a obras como o London Fields de Martin Amis, como será possível classificar, na mesma escala, a Odisseia, o Rei Lear, o D. QuixoteAs Folhas de ErvaA Morte de VirgílioEm Busca do Tempo Perdido ou o Ulisses?
Ou falando de ciência , se A Evolução para Todos de David Sloan tem cinco estrelas, quantas seriam necessárias para classificar A Origem das Espécies ou A Origem do Homem e a Selecção Sexual? Será que daqui a alguns séculos ainda se ouvirá falar deLondon Fields e de David Sloan? Não estaremos perante constelações diferentes?
E terá algum sentido lógico que, por exemplo, Rogério Casanova atribua duas estrelas aos Contos Completos I de John Cheever e Eduardo Pitta lhes conceda cinco? Será Cheever duas vezes e meia melhor que Cheever, ou seja, será Cheever muito superior a si próprio?
Uma das poucas «vantagens» do método das estrelas é evidenciar «absurdos» como os de um livro, com apenas duas estrelas, de Tom Wolfe, Eu Sou a Charlotte Simmons, ter um destaque gráfico que está de todo ausente em Diários de Viagem de Eduardo Salavisa, que fez o pleno no mesmíssimo número do Expresso.
Claro que lendo os textos dos críticos talvez alguns destes absurdos, facilmente multiplicáveis, deixem de o ser. Mas isso não anula a confusão gerada pelo método quantitativo.
Este processo é ainda pior por se voltar contra os críticos que o consentem. É que o seu trabalho é, no melhor dos casos, uma disciplina da literatura, o ensaio literário e, como tal, passível de abertura à interpretação dos leitores. Ao pactuar com a avaliação quantitativa, os críticos estão a tornar menos interessante a sua actividade fechando a porta da subjectividade na cara dos leitores.

Francisco Vale ]]>
<![CDATA[A Crítica dos Críticos II]]>Tue, 03 Jan 2012 16:07:02 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-ii.htmlA Vida Difícil dos Bons Livros
António Guerreiro é um jornalista atento. Sem o seu trabalho muitas obras de poesia ou de ciências sociais seriam injustamente ignoradas.
E, no entanto, o seu artigo publicado no Expresso de 1 de Maio, sobre a vida editorial, é redutor ao atribuir a factores como o excesso de produção e à comercialização livreira a responsabilidade principal pelas ameaças à «sobrevivência de espécies bibliográficas» e à sua «diversidade».
O excesso de produção só pode ser um fenómeno conjuntural sem consequências a longo prazo. E o problema de «diversidade» no sector é o mesmo que existe para certos vírus, ou seja, a diversidade até tem aumentado mas criando espécies indesejáveis – o «vampirismo casto», os variados dragões, o realismo urbano imediatista, o género «estrelas televisivas», etc.
Por outro lado, o comércio livreiro não tem o poder de inflectir duravelmente a procura dos leitores e uma prova disso é que, quando uma delas, com uma área razoável num local central, expõe apenas «livros de referência», acaba em falência inglória. O caso de «O Navio de Espelhos» é disso exemplo.
A razão principal para as melhores estantes das livrarias não estarem ocupadas por «bons livros», resulta de um processo em que confluem tendências sociais e culturais de que são responsáveis específicos o sistema de ensino, os media, os editores, os jornalistas, os autores e os livreiros.
Tendo como pano de fundo uma reprodutibilidade técnica que subtraiu às obras de arte a aura da sua «distante proximidade», a massificação de ensino e uma vida urbana que retira vagar e silêncio à leitura, verifica-se a apropriação por parte da sociedade do divertimento de um meio cultural prestigiado como o livro – hoje há editoras especializadas em publicar figuras televisivas com audiências garantidas em prime time, juntando-lhe um ou outro escritor «sério» nada preocupado com a companhia.
Este processo é comum à generalidade dos países e levou à criação de um público em que a maioria prefere Paulo Coelho, Dan Brown ou Stephenie Meyer a Kafka, Cormac McCarthy ou mesmo Philip Roth. É o surgimento, entre os leitores, de uma maioria que prefere livros apenas de divertimento que está na origem da situação actual.
Em Portugal pesa ainda o facto de se ter mudado de uma sociedade quase iletrada para uma outra herteziana e digital, passando por cima da «Galáxia de Gutenberg». Isso sucedeu devido à fragilidade da nossa revolução industrial, que dispensou certas formas de literacia e conduziu de uma economia ruralizada para a actual sociedade de serviços.
Mas mesmo antes de chegarmos às «culpas» específicas do sector como as dos escritores, livreiros e editores, devemos falar dos media, onde se reduzem os espaços destinados aos livros e é quase impossível encontrar um jornalista especializado em divulgação científica. Poderíamos citar dezenas de obras de «ciências duras» e «sociais» de referência que não tiveram um segundo de atenção nos media portugueses.
Por outro lado, o sistema de ensino desencoraja a leitura e a escrita, ou seja, não cria públicos para os géneros referidos – e também para o teatro, poesia e artes plásticas.

As Responsabilidades no Sector
É evidente que a «fuga em frente» do excesso de produção de alguns editores leva a que livros de qualidade fiquem submersos nas estantes das livrarias que tendem por isso a encurtar os «prazos de devolução». Há mesmo grupos editoriais que praticam deliberadamente esse excesso de produção para asfixiar concorrentes. Mas como referimos isso não suprime as «obras de referência» nem tem efeitos estruturais como os referidos por António Guerreiro.
Por sua vez, os livreiros tentam impor condições que dificultam a vida às editoras mais exigentes, aumentando as margens, exigindo um pagamento de espaços nas suas brochuras duas vezes mais caro que na New Yorker e procedendo às devoluções num prazo que não permite que a crítica possa ter efeito nas vendas. Isso contribui para a brilhante monotonia dos seus expositores.
Como, apesar de tudo, já existe um público para obras de qualidade, os livreiros poderiam retirar os «bons livros» dos esconsos, especializar-se em certas áreas, ou vender fundos em lojas amplas na periferia onde as rendas são mais acessíveis evitando naufrágios como a da Byblos. Os livreiros são ainda responsáveis pelo facto de qualquer «livro televisivo» ter assegurado uma centena das suas melhores montras, independentemente do que lá venha escrito – só isso explica que «o livro mais esperado do ano» possa ter uma autora sem «antecedentes» na escrita.
Mas se as livrarias ajudam ao eclipse dos «livros de referência», a verdade é que são sobretudo a sua expressão visível no final de um processo.
Afinal quem publica os maus livros são os editores e quem faz as capas com letras douradas em relevo são os designers. E são autores os que escrevem essas obras e aprovam essas capas. E tudo isso porque há leitores que os procuram.

Francisco Vale

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<![CDATA[A Crítica dos Críticos I* — Helena Vasconcelos e a «Grande Literatura»]]>Tue, 03 Jan 2012 16:02:12 GMThttp://www.relogiodagua.pt/3/post/2012/01/a-crtica-dos-crticos-i-helena-vasconcelos-e-a-grande-literatura.htmlNo Ípsilon de 30 de Abril, Helena Vasconcelos escreve sobre o Regresso do Soldado de Rebecca West, afirmando tratar-se de uma obra inscrita «no âmbito da literatura de guerra», sendo pioneira na abordagem «dos efeitos do “stress pós traumático”». Conclui, no entanto, que «não pode ser considerada “grande literatura”».
Helena Vasconcelos comete um duplo erro.
Dizer que O Regresso do Soldado é pioneira na abordagem do «stress pós traumático» é passar ao lado, é como dizer que O Coração Solitário Caçador de Carson McCullers inicia a «literatura dos deficientes», só porque os personagens, Singer e Antonópoulo, são dois jovens mudos.
A tensão dramática em O Regresso do Soldado tem a ver com a destruição das paixões adolescentes pelo tédio calculada da vida adulta. O trauma sofrido por Christopher nas trincheiras confere à narrativa uma dimensão de actualidade, mas é algo de instrumental – por exemplo em The Revolutionary Road de Richard Yates, a circunstância dessa ruptura dramática é a desistência de Frank Wheeler em partir para Paris com a mulher devido a uma promoção no emprego.
Por outro lado, a recusa de Helena Vasconcelos em considerar O Regresso do Soldado «grande literatura» não pretende ser uma abordagem teórica, no sentido em que se discutiu numa dada época se os ready-mades de Duchamp eram ou não obras de arte. Helena Vasconcelos dá razão aos críticos que acham que Rebecca West «escrevia demais, descurando, por vezes, a qualidade». É pena que Helena Vasconcelos, que enumera os amigos e amantes intelectuais de Rebecca West, não indique de que críticos se trata, nem aborde outras importantes obras de West, como The Birds Fall DownHarriet Hume ou The Thinking Reed, dando exemplos de tal incúria.
Considero O Regresso do Soldado uma dessas raras novelas quase perfeitas e, sem querer usar o argumento de autoridade, devo dizer que sou acompanhado pelos críticos do El País que, no balanço do ano literário de 2008, a colocaram em primeiro lugar entre as dez melhores obras de ficção, injustamente esquecidas, publicadas em Espanha.
É uma novela breve que se caracteriza pelo despojamento da linguagem, a tensão narrativa e a subtileza das situações, personagens e desenlace. Desafiamos qualquer leitor a apontar uma frase em excesso.
O Regresso do Soldado tem uma perfeição comparável a Os Adeuses de Onetti, aoFalcão Peregrino de Glenway Wescott, à Balada do Café Triste de Carson McCullers, ao Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar, a Pedro Páramo de Juan Rulfo, aUm Copo de Cólerade Raduar Nassar, a Djamila de Aikmatov e a O Primeiro Amor de Turguéniev (entre nós podemos referir apenas, e a alguma distância, O Barão de Branquinho da Fonseca ou A Paixãode Almeida Faria).
Só não é caso para desejarmos que se aplique a Helena Vasconcelos a conhecida frase de Oscar Wilde («quando li o crítico odiei o livro, quando li o livro odiei o crítico»), porque se trata de alguém que, noutras ocasiões, tem divulgado a melhor literatura.

* A «crítica dos críticos» é algo que escasseia em Portugal, embora, claro, para um editor só tenha sentido quando se trata de autores que já não se podem defender.

Francisco Vale ]]>